Fazenda Lagoa da Vaca

Reprodução de fotografia antiga do Casarão da Fazenda Lagoa da Vaca com intervenção da IA. Produção: Robson Rodrigues

Entre os umbrais das portas e a esquadria das dezenas de janelas da casa-sede do latifúndio de Lagoa da Vaca, em Curaçá Bahía, repousam histórias que condensam o próprio sertão, imerso, desde sempre, numa luta sagrada pela terra.

Hoje, nossa fala se volta para uma torre horizontal, posta no sertão, entre os municípios de Uauá e Curaçá. Próxima à fronteira norte de Uauá e ao sul de Curaçá, existiu uma casa com vinte e cinco janelas, erguida pedra a pedra, adobe sobre adobe, pelas mãos negras escravizadas, pelos vaqueiros e mulheres indígenas pegas a dente de cachorro.

Esse casarão nasceu no auge do pujante mercado do couro e da expansão territorial da criação de gado, como parte de um grande latifúndio sertanejo. Dali emergiram histórias e conflitos profundos pela posse da terra, lutas que atravessam séculos e ainda ecoam na memória coletiva da região.

Poucos poderiam imaginar que, nesse mesmo território, confluiriam descendentes de colonizadores portugueses, homens e mulheres africanos escravizados, remanescentes dos povos originários e, mais tarde, imigrantes japoneses, numa trama histórica que até hoje causa espanto aos moradores locais e a pesquisadores como eu.

Antes da ocupação colonial, aquelas terras pertenciam aos povos indígenas Kiriri, Kaimbé, Tumbalalá, Atikum e Truká. Esses povos foram encurralados, perseguidos e expulsos pelas cruzadas portuguesas que avançavam a partir da comunidade de Pambu, no extremo norte da atual Bahia, e pelos colonizadores vindos do vale do Itapicuru, que expandiam a criação de gado pelas regiões de Monte Santo e, posteriormente, Uauá.

Assim, terras ancestrais passaram a integrar os domínios da Coroa Portuguesa, que nomeou como proprietário o conquistador Garcia D’Ávila, fundador da Casa da Torre, estrutura que administraria o maior latifúndio que este país já conheceu. Após sua morte, em 1609, as terras foram herdadas por sucessivas gerações até chegarem às mãos do Barão de Jeremoabo, Cícero Dantas Martins.

Foi ele quem ordenou a construção de uma casa-sede naquela região estratégica, com o objetivo de incentivar o povoamento e garantir a posse efetiva das terras. O casarão foi erguido com mão de obra escravizada: mais de trinta homens negros construíram uma casa com vinte e cinco janelas, seis portas, senzala, currais e demais estruturas necessárias à administração do gado.

Como tantas casas dos séculos XVIII e XIX, sua arquitetura refletia as demandas do tempo: vigilância, controle territorial e ostentação do poder fundiário. Os administradores, Dona Joana Matos e seu esposo, não tiveram filhos, e a propriedade foi herdada por seu sobrinho, Galdino Ferreira Matos, que posteriormente a vendeu a um grupo conhecido como “os Doutores”, homens do litoral que investiam em terras no interior, geralmente desprovidas de infraestrutura ou pouco beneficiadas.

Ao redor do latifúndio, vaqueiros e pequenos criadores construíram suas casas, pequenos cercados e currais. Cuidavam do gado dos coronéis, mas também formavam seus próprios rebanhos. No início do século XIX, a região prosperava, sustentando uma pecuária crescente.

Já no início do século XX, os posseiros utilizavam aquelas terras como pasto comum. Suas famílias cresceram, seus rebanhos se multiplicaram, e o uso coletivo do território consolidou-se como prática social e cultural.
O conflito emergiu quando a Fazenda Lagoa da Vaca foi vendida a um imigrante japonês, Hiroshi Kawabe, que decidiu cercar as terras até então livres. Onde antes havia circulação, pasto comum, coleta de frutos, madeira e mel, ergueram-se cercas de oito fios de arame farpado.

Iniciou-se, então, um intenso conflito comunitário envolvendo posseiros, fazendeiros locais e comunidades circunvizinhas. Autoridades de Uauá e Curaçá tentaram intervir, sem sucesso. O período foi marcado por violência, atentados e prejuízos coletivos.
Comunidades de fundo de pasto, posseiros, movimentos sociais, a Pastoral da Terra e lideranças políticas locais buscaram uma solução consensual, que não veio. Diante do impasse, o povo fez justiça com as próprias mãos: organizou-se e destruiu as cercas da Fazenda Lagoa da Vaca.

Mais de cinco mil hectares voltaram a ser terras soltas. Posteriormente, o governo federal indenizou o proprietário e devolveu oficialmente o território às comunidades locais.

Hoje, Lagoa da Vaca é novamente fundo de pasto, terra coletiva onde homens e mulheres descendentes dos povos originários, dos africanos escravizados e dos vaqueiros fundadores do sertão usufruem das riquezas naturais que sempre lhes pertenceram.

O casarão da Fazenda Lagoa da Vaca é mais que uma construção arquitetônica. Ele simboliza as contradições históricas do Brasil: os interesses das grandes oligarquias confrontados com as dívidas sociais deixadas aos povos explorados, excluídos e perseguidos desde a colonização, atravessando impérios e chegando à República.

Enquanto poucos homens dominaram vastos latifúndios, muitos outros cultivaram pequenos pedaços de terra para dar de comer e beber a um território que, um dia, passou a se chamar Sertão.

Por Robson Rodrigues e Ivana Silvano

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