O poeta e jornalista Luis Osete foi reconhecido na noite de 27 de outubro com o Prêmio Jabuti 2025, na categoria Escritor Estreante – Poesia, dentro do Eixo Inovação. A obra premiada, “Maracujá Interrompida”, publicada pela Cepe, acompanha a trajetória de uma mulher que tenta atravessar o luto pela morte da mãe enquanto assume os cuidados do pai, já em estágio avançado de demência.
Osete explica que a protagonista desenvolve uma relação simbólica intensa com o fruto que dá título ao livro.
“Ela vê a mãe no maracujá, e é por isso que ela chama de maracujá interrompida. Porque, de repente, maracujá não é o maracujá, é a maracujá que é a mãe também dela. Tem essas camadas assim de sentidos que o livro vai provocando nas pessoas que leem”, comenta.
Osete destaca que a leitura pode tocar cada pessoa de forma distinta.
“Pode alguém que esteja elaborando o luto, pode se identificar muito com essa elaboração do luto, da ausência da mãe, da morte da mãe da menina, e alguém que não tenha vivenciado isso pode pescar outra coisa ali. Fala sobre a vida, sobre a morte, sobre os afetos desbotados também da vida. Então, fala sobre isso, afetos, sobre coragem também”.

O significado do Jabuti para Osete
Ao comentar o prêmio, ele reflete sobre como a conquista funciona como resposta às incertezas que acompanham quem escreve.
“Eu acho que isso fortalece esse sentido da caminhada, de que a mensagem está chegando, de que as pessoas estão reconhecendo mesmo que há uma qualidade literária naquilo. A gente que escreve, eu acho que a gente vive nessa insegurança e tem que viver um pouco essa insegurança”.
Apesar da premiação, Osete pondera que a literatura não deve ser encarada como uma disputa absoluta.
“Cada livro vai nos pegar de um jeito. Eu acho muito difícil, por exemplo, escolher entre um livro de Drummond e um livro de João Cabral. Imagina ter que ir em um prêmio literário e ter que dar um prêmio ou para Drummond ou para João Cabral, que são duas pessoas que me influenciam muito e são muito importantes aqui na literatura brasileira. Então, eu tenho que criar essa limitação mesmo”.
Ele complementa:
“Não é possível premiar todos, às vezes a gente tem que destacar alguém. E óbvio que a gente não pode ficar vaidoso com isso”.
Da Bahia ao Rio: a trajetória até o prêmio
A edição de número 67 do Prêmio Jabuti foi realizada pela primeira vez no Rio de Janeiro, cidade onde Osete vive atualmente enquanto conclui o doutorado na UERJ. Nos anos anteriores, a cerimônia acontecia em São Paulo.
Natural da cidade de Cardeal da Silva (BA), Osete morou em Juazeiro e Petrolina desde 2005. Em Pernambuco, trabalhou como servidor do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFsertãoPE). A mudança para o Rio ocorreu em 2022, quando se afastou do cargo para se dedicar à pós-graduação.
Ainda antes de se mudar, participou do VIII Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, promovido pela Secult-PE, Fundarpe e Cepe. “Maracujá Interrompida” foi o vencedor daquela edição, sendo lançado pela editora em novembro de 2024. O autor lembra a coincidência de prazos e deslocamentos que o colocaram na disputa do Jabuti.
O início na poesia, a pandemia e novos projetos
“Maracujá Interrompida” marca sua estreia oficial na poesia, embora o interesse pelo gênero tenha começado na juventude. Osete recorda que um professor do ensino médio o incentivou a publicar poemas em antologias escolares, o que despertou seu desejo de aprimorar a escrita literária.
Durante a pandemia da Covid-19, enquanto vivia com os pais por nove meses, sentiu a necessidade de escrever diariamente — textos que mais tarde deram origem ao livro.
“Passei nove meses morando com meus pais, e na pandemia me veio a necessidade da escrita, escrever como se fosse um diário. E é esse diário poético que se transformou nesse livro”.
Atualmente, ele finaliza sua tese de doutorado, que pesquisa crianças de comunidades ribeirinhas do São Francisco, e já pensa em sua próxima obra.
“Eu quero poder, até como um resultado desse processo de pesquisa com crianças, escrever um livro para as crianças. Eu acho que esse vai ser meu próximo projeto literário. Eu sei que a tese não vai ser do interesse das crianças lerem. A tese é um trabalho acadêmico.”



